29 de dezembro de 2009

A flor do meu desejo...

Não sou muito chegada a textos oníricos sobre fins de ano, Natal e que tais.
Mas não posso me furtar a deixar aqui umas poucas palavras, já que esse ano que passou foi meio "estranho" para mim, para o país mais uma vez pego de cuecas na mão, e para as questões do planeta mais uma vez afogadas na estupidez que reinou na distante Dinamarca onde, sabemos todos, sempre houve algo de podre...

Mas, notem bem, o ano que chega é o Ano do Tigre, símbolo da sorte, da força e da rebeldia. Nesse ano, preparem-se, tudo é drástico, para o bem, ou para o mal.

E foi pensando nisso, na vitalidade explosiva de 2010, que fotografei uma flor de maracujá que brotou na minha varanda, linda e poderosa na sua existência de apenas um dia! Um só dia de esplendor que me cheira a "milagre", já que eu nunca plantei maracujá nenhum, e nem muito menos cuidei desse, que só pode ter chegado aqui pelos
passarinhos que ainda insistem em Copacabana.

E, mesmo assim, sem maiores cuidados do que a água da chuva eventual, a vida se impôs e as flores brotaram.



Esse é o meu recadinho para vocês nesse momento de...hummm...reflexão: a vida se impõe, galera!!! E, mesmo que pelas grades de ferro de Copacabana, e como já cantou Gonzaguinha, ela é bonita, é bonita e é bonita...

S'imbora povo!!! Que venha 2010 e que nos encontre com a mente esperta, a espinha ereta e o coração tão tranquilo quanto essa flor de maracujá que, a despeito de tudo, nasceu pela vontade da Terra.

Beijos a todos.

23 de dezembro de 2009

Pensamento para um fim de ano...



"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre".

Miguel Souza Tavares
em "Equador"

22 de dezembro de 2009

Sem palavras...

A vocês que me dão a honra de por essas paragens se achegarem vez por outra, minhas sinceras desculpas pela ausência. É que ando com pensamentos confusos, idéias, mais ainda. Meio fim de ano, meio fim de uma festa que sequer começou...

As palavras, mesmo as vagabundas, me fogem, escorrem entre essas teclas, e não formam sentido algum, a não ser para mim mesma, e olhe lá!

Então, meus caros companheiros virtuais, voltarei em breve, espero, com alguma coisa que valha mais a pena do que fantasmas e sensações mal traduzidas.

Deixo aqui, no entanto, uma pérola que cabe perfeitamente nesse espaço forjado por uma carioca da gema, copacabanense convicta e amorosa: o genial paraibano, o "rei do ritmo", Jackson do Pandeiro, cantando uma das músicas que o tornou famoso lá nos idos dos 50's...

17 de dezembro de 2009

O Obama é fhogo!

Essa mini-fotonovela vem lá do Todo Prosa que, por sua vez, recebeu de um amigo que, por sua vez, tirou do www.brogui.com. É absolutamente genial!!!
É meu último post sobre o Berlusconi.
Ou não...

16 de dezembro de 2009

Pra você, imã da madrugada...

Para além das eternas discussões sobre Música ser ou não ser Poesia (e até porque eu não dou a mínima pro resultado da celeuma), fica aqui o registro do encontro entre dois abençoados e maravilhosos malditos que, a essas alturas, devem estar tomando todas em algum lugar entre o Alto Leblon e o Baixo Paraíso: Cazuza, o autor, e Cássia Eller, o bardo...



"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria"

Todo Amor que Houver Nessa Vida
Cazuza
Composição: Frejat/ Cazuza

15 de dezembro de 2009

Há mais coisas entre o céu e a terra...



O que será que esses dois Exterminadores têm em comum? Hummm... Músculos?
E o que será que o-homem-que-nunca-tomou-hormônios tem de tão engraçado assim a dizer pro Homem-que-nunca-sorria lá na fria Dinamarca onde, sabemos todos, há algo de podre?



Nem a ficção deu conta desse encontro: Mr. Burns e Conan (o bárrrrbaro).


A realidade, afinal, se impõe bem mais Fantástica: poderia ser um drama, mas, antes, é chanchada...

(e que gravata é essa de Arnaldo combinandinho com a bolha verde atrás do José, meu deus?!)

14 de dezembro de 2009

Ça va sans dire...



E aí...
Bem feito! Dez mil vezes bem feito, seu babaca!!!!!

Quisera fosse apenas humor negro...

Em pleno momento em que nosso país envia mais de 700(!) pessoas para a Dinamarca à guisa de discutirem e providenciarem novos rumos e atitudes para a salvação de nosso combalido planeta, eis que me deparo com um cenário pra lá de deprimente a apenas 30 km da cidade de São Paulo, em Cotia, no bairro da Granja Viana: a destruição de nada mais, nada menos, que 300 mil metros quadrados de Mata Atlântica, um crime não só contra o bom senso e a ecologia, mas um crime federal, com severas punições previstas por lei! E para quê? Para a construção de mais um condomínio Alphaville.

A área antes de AlphaVille chegar


Esse empreendimento "conceitual" de moradia, que começou em 1970 e tem o desplante de se intitular "a grife brasileira do urbanismo sustentável", está presente em 40 cidades de 16 estados de nosso país. Se propõe - e olhem só que cinismo - a "entender as peculiaridades de cada região, sempre mantendo o espírito de liberdade e a atmosfera saudável que caracteriza o estilo AlphaVille. Cada empreendimento é projetado sob medida, levando em conta a cultura e os hábitos de cada localidade. Mas todos os AlphaVilles têm em comum o compromisso com a sustentabilidade, com a preservação do meio ambiente e o modelo de ocupação de baixa densidade, próprios do Novo Urbanismo."

Seria de rolar de rir, não fosse de chorar à exaustão. As casas, ou melhor, a arquitetura urbana que caracteriza o Alpha-Horror (esse título foi conferido pelo Ricardo Soares, do blog Todo Prosa ali ao lado linkado, meu cicerone e companheiro de angústia) segue a estética de gosto altamente duvidoso do american way of life, o que não tem absolutamente nada a ver com o Brasil e nossas "culturas e hábitos" (sic): constroem ruas fechadas, praças pavimentadas repletas de palmeirinhas made in Miami (argh!), umas "quase cidades" isoladas das comunidades vizinhas que vendem a ilusão de que o mundo é maravilhoso, de que não existem problemas de nenhuma ordem - e olha a felicidade aí, genteee!!!! Uma coisa tipo "Truman Show", sacam?

A área depois de AlphaVille chegar


Aí, então, volto eu ao primeiro parágrafo: 700 pessoas em nossa "modesta" e proba delegação ecológica lá no outro lado do mundo e, bem debaixo de nossos narizes ardidos de poluição, um crime absurdo é cometido e nada, absolutamente nada acontece!!
Poderia ser apenas piada de mau gosto, pesadelo, eco-chatice delirante, mas não, é de verdade mesmo. Óbviamente a corrupção está comendo solta enquanto que nossa delegação-do-bem-tão-preocupada-com-o-futuro-do-planeta está cagando pro seu quintal, cada vez mais acimentado por Alpha-Villões devoradores de florestas.

Os moradores da região tentam, até agora em vão, fazer alguma coisa e se mobilizam. Abaixo, num video que registrou uma de suas logradas tentativas, podemos ter uma idéia mais próxima do horror ali cometido impunemente. Mais detalhes no blog que criaram e de onde "roubei" as fotos acima: granjaviana.blogspot.com

10 de dezembro de 2009

Hasta la vista, baby...

Parto em direção ao sul. Nesse fim de semana estarei ausente, em busca de alguma réstia de sol, um pouco de azul. Não peço muito, basta-me alguma luz, que aqui já há nublados demais...
Deixo vocês na boa companhia de uma Fantasia.
Até a volta.



Para Além da Curva da Estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

9 de dezembro de 2009

Para E.

Eis que recebo o release de mais um - e nunca demais - livro, esse de Ronaldo Werneck, sobre Humberto Mauro, grande mineiro da Zona da Mata que, lá do início do século passado, veio a se tornar O grande Nome do cinema nacional, referência fundamental para outros grandes cineastas como Glauber e Nelson Pereira dos Santos.

Quem não conhece HM não sabe o que perde. Diz-se dele que é o verdadeiro fundador do Cinema Novo. Diz-se, também, que o mais brasileiro de todos os nomes de nosso história cinematográfica, visto serem suas obras verdadeiros libelos de nossa cultura, de nossas gentes, nosso folclore e de nossa música. E de fato: em seus mais de 80 filmes, entre curtas, longas e documentários, o Brasil é o personagem principal.

E que enquadramentos, meu Deus! Que fotografia! Os contrastes entre "seus pretos e seus brancos" são verdadeiros bálsamos para esse nosso mundo inundado por fotoshopagens...

Ao ler o tal release, lembrei-me logo do filme que segue abaixo, provavelmente um dos primeiros video-clipes do mundo, o último dirigido por nosso cineasta em questão. Foi produzido em 1964, e é uma jóia que vale a pena ser apreciada até o final, e de novo e mais uma vez: não cansa nunca, enleva e nos faz sorrir aquele sorriso das crianças encantadas.

Ofereço ao balseiro Edu Campos ("até a margem do grande rio", ali ao lado linkado), fotógrafo como Humberto Mauro, recém chegado de uma aventura por outras matas que não as de Minas, mas que imagino igualmente mágicas, cheias de bois, e cachorros, e aranhas e de velhas a fiar...



Obs.: o ator é Matheus Collaço e a música, de nosso folclore, é intrepretada pelo Trio Irakitã. Delícia pura!

7 de dezembro de 2009

Qual é o limite da estupidez humana?

Está a todo vapor a construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico(CSA), um mega complexo siderúrgico em Santa Cruz, às margens da Baía de Sepetiba (RJ), cuja meta é a produção de 5 milhões de toneladas de placas de aço por ano.
O empreendimento, previsto para começar a operar em meados de 2010, vai gerar 3.500 empregos diretos e mais uns 10 mil indiretos, o que, convenhamos, não é pouca coisa.


O problema, que também não é pouca coisa, está no "detalhe" de que, quando em pleno funcionamento, vai emitir 9,7 toneladas de CO2 eq/ano, 12 vezes mais que a totalidade das outras industrias do Rio checadas em 1998.

Essa informação me chegou pelo site do PV: ao saber dessa história durante um jantar com o Sirkis (presidente do Partido Verde no Rio), Daniel Cohn-Bendit, o lider dos verdes no Parlamento Europeu, disse, entre chocado e perplexo: "Isso é algo enorme, vamos investigar se houve alguma burla direta ou indireta de normas da União Européia. São gases de efeito global, tanto faz se são emitidos na Alemanha, no Brasil ou na Nigéria”.

É impressionante que até hoje esse tipo de "descuido" ainda ocorra no mundo. Sinais de catástrofes irrevogáveis, ou melhor, sinais, não, catástrofes mesmo, espocando em tudo que é canto por causa da poluição e do efeito estufa, e esse débil ser Humano insiste em continuar a poluir desmesuradamente. E, é bom que se lembre, a CSA é da Thyssen Krupp, que pretende exportar para suas fábricas alemãs e americanas o aço aqui produzido... Putz! Depois de acabarem com suas florestas, los gringos vêm pra cá para terminar com as nossas?! É isso mesmo, ou eu é que sou ignorante demais para pensar hiper-mega-super-empreendimentos?

O cérebro pode delatar uma pessoa?

Assistindo ontem às lamentáveis cenas de violência das torcidas de futebol, engatei uma interessante conversa com uma amiga sobre os motivos de tais atos. E como "livre pensar é só pensar", acabamos descambando para neurociência, experimentos nazistas, os filmes "Gátaca" e "Minority Report", e toda sorte de suposições (pseudo)científicas.
Lembrei-me, então, de um texto que li já há alguns meses e que, sabe-se lá porque, guardei aqui no computador. Como acho sempre interessante tais divagações, essa idéia de que um dia a ciência há de controlar nossas vidas, emoções, desejos e que tais, ei-lo um pouquinho editado para não ficar demais...

“A intimidade do pensamento está em risco. Novas técnicas para ler a mente reforçam o detector de mentiras para acusados e empregados.

Até agora foi uma possibilidade mais ou menos remota e mais ou menos incômoda. Mas um tribunal da Índia a transformou em realidade: em junho, uma mulher foi condenada por assassinato depois que o juiz aceitou como prova o resultado de um detector de mentiras cerebral. A acusada - que se declara inocente e se submeteu voluntariamente ao teste - não precisou abrir a boca; seu cérebro supostamente disse tudo, e acabou inculpando-a. A maré de reações não se fez esperar, entre outras coisas porque a notícia cai em campo fértil.

Nos últimos anos empresas americanas anunciaram a intenção de oferecer esse serviço, por isso os neurocientistas e especialistas em ética e em direito há algum tempo se perguntam se a técnica é confiável... e não só isso. O que mais se poderia ler no cérebro, além da mentira? É um avanço ou um perigo?

A neuroética já se considera uma nova disciplina. Na publicação científica de mesmo nome, "Neuroethics", analisa-se desde a responsabilidade penal dos viciados até o uso de medicamentos para alterar a memória - há pelo menos um caso real: uma mulher escutou na mesa de cirurgia o grave diagnóstico do câncer que sofria, e o anestesista apagou deliberadamente e com sucesso a memória da paciente.



Javier Cudeiro, do grupo de Neurociência e Controle Motor da Universidade de La Coruña, diz que recorrer aos rastreadores cerebrais para detectar mentiras hoje é "conceitualmente semelhante" ao uso da frenologia há dois séculos, quando se analisava a personalidade de um indivíduo medindo os relevos de seu crânio - molde dos vultos que no cérebro abrigariam sentimentos como amor, ódio ou sentido de justiça.

Isso já responde à primeira pergunta da lista: não, atualmente nenhuma técnica de detecção de mentiras e confiável. Mas não só as baseadas na neurociência. Também não é seguro o polígrafo nem os movimentos involuntários dos olhos, nem a medição da temperatura do rosto, entre outras técnicas variadas a que já se recorreram - a Inquisição dava pão e queijo a suas vítimas; caso se engasgassem era porque tinham a boca seca e portanto mentiam. Essa é a opinião majoritária da comunidade científica internacional.

Os rastreadores cerebrais para detectar mentiras partem do princípio de que o cérebro trabalha mais para mentir. Mas e se o suspeito acreditar que um fato falso é verdadeiro? Se um psicopata sem qualquer remorso engana tranqüilamente um polígrafo, o que dizer de um cérebro com falsas lembranças? "Os resultados seriam muito diferentes se o suspeito fosse um neurótico ou um psicopata; o primeiro pode tender a se autoculpar, e o segundo nem se emociona com a lembrança do caso. Se já é difícil saber a verdade com palavras, por que esperam que seja mais fácil registrando a atividade cerebral?", diz José María Delgado García, neurofisiologista da Universidade Pablo de Olavide.



Com tanto em contrário, pode-se dizer que a idéia de apanhar um mentiroso pelo cérebro deveria estar enterrada. Mas é o contrário. E o comprovam fatos relacionados, como o de que os principais usuários do polígrafo nos EUA sejam as agências de segurança e defesa, que submetem seus empregados ao teste. Segundo o jornal "The International Herald Tribune", o Pentágono - que conta com um instituto especializado em técnicas de detecção de mentiras, como o próprio polígrafo - pretende provar a sinceridade de 5.700 empregados e aspirantes a cada ano. Para isso deverá recorrer pela primeira vez à terceirização. A lei que proíbe que as companhias americanas demitam ou selecionem seus funcionários com base no polígrafo não afeta os funcionários públicos. Então qual é a diferença entre o caso na Índia e as duas empresas americanas que comercializam serviços de detecção de mentiras com rastreadores cerebrais? Nenhum tribunal aceitou até hoje suas técnicas, muito menos em um caso de assassinato. Mas isso não foi necessário para que elas começassem a ganhar dinheiro.


Restam outras perguntas. E se a técnica realmente chegasse a ser confiável? Isso poderia acontecer...




...o problema hoje está na complexidade da informação a se processar, mas não existe um obstáculo fundamental, diz Agnés Gruart, neurocientista da Universidade Pablo de Olavide. "O cérebro funciona pela ativação de determinados circuitos cerebrais em um tempo e uma ordem determinados, por isso é perfeitamente correto que alguém determine através de técnicas de neuroimagem ou semelhantes onde ocorre essa ativação, e suas características. O problema é que ainda não podemos interpretar esse funcionamento de forma precisa. Todo o comportamento e o pensamento são produzidos no cérebro; com mais informação e refinamento técnicos, poderia chegar a descrever como são gerados o comportamento e o pensamento."

Cudeiro também diferencia entre hoje e depois de amanhã: "É possível que em um futuro não distante sejamos capazes de encontrar os correlatos neurais da intenção ou da verdade. Na atualidade a incerteza dos dados ainda não o permite".

É fácil imaginar: nos aeroportos não seria preciso abrir malas, mas o cérebro - isso sim, o equipamento teria de mudar muito. Fazer hoje uma ressonância magnética não é um processo rápido nem cômodo, nem para todo mundo. Talvez também não seriam necessários jurados, e a polícia teria dispositivos portáteis.

Para Javier Sádaba, diretor do Instituto de Bioética e Humanidades Médicas, "a modificação da vida seria bastante considerável". Mas na opinião dele é um cenário verossímil: "Estamos entrando no cérebro a uma velocidade surpreendente, os avanços são espetaculares e colocam questões estritamente morais relacionadas à intimidade". Para Sádaba, seria preciso estabelecer limites para o uso dessas tecnologias, mas deveria primar o bem comum: "Imaginemos que a vida de 200 pessoas dependa de se alguém mente. Não haveria qualquer inconveniente em recorrer a essas técnicas".


Mónica Salomone
Fonte: El País
créditos:
Tela "Lição de Anatomia", de Rembrandt
Foto: José Roberto Arruda, de Valter Campanato

3 de dezembro de 2009

Ziriguidum!

A essas alturas, já foi (ontem) o Dia do Samba, mas não deu tempo de chegar antes. Então...
Pra não deixar passar em branco, até porque "samba é coisa de preto", fica aqui a prova cabal de que o samba não morrerá mesmo: duas gerações, dois timings diferentes, e ele continua vivo e pulsante, sacudindo as cadeiras, remelexendo "do cóxis ao pescoço"...
Mesmo que, e por isso mesmo, se enroscando gostoso com outros estilos...



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2 de dezembro de 2009

A Praga de Rubem

Ontem fui caminhar na praia. Em Copacabana, onde moro, onde morou meu pai, minha mãe, meus avós, bisavós, tataravós. Onde moram tios e primos. Onde nasci e me criei.
Andei pela milionésima vez naquelas areias grossas, mergulhei com intimidade no mesmo marzão frio como se ali fosse a piscina da minha casa e mais uma vez me encantei com o recorte do horizonte, Niterói lá longe...

Estava tudo calmo, as gaivotas em alvoroço perto da Colônia de Pescadores, o Drumond em bronze ali sentado com seus óculos quebrados pela metade, frescobol rolando, futebol, cachorros, velhos, gente correndo, sol aparece-desaparece. Calor!

Hoje acordei, abri o jornal e...mais uma "operação pacificadora" da polícia transformou, ontem, a Av, Copacabana em caos completo na altura do Posto 5, nas cercanias da favela Pavão-Pavãozinho.


Não pude deixar de me lembrar da "maldição" lançada pelo cronista que, apesar de capixaba, melhor escreveu sobre a cidade que tanto amou...

"1. AI DE TI, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.


6. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.


12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.}

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.


19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
"

Ai de Ti Copacabana (fragmentos)
Rubem Braga
1958
(as fotos são de ontem mesmo. Fonte: O Globo)

1 de dezembro de 2009

Os Homens e suas bolas...

Confesso que a última grande e significativa memória rubro negra que ainda conseguem guardar meus estafados neurônios é a vitória sobre o Atlético Mineiro, quando Nunes fez o terceiro e decisivo gol aos 45 minutos do segundo tempo, em pleno Maracanã abarrotado -uns 150 mil pagantes?- levando o Mengão ao título de campeão brasileiro de 1980!

De lá pra cá, saiu Zico, saíram Junior, Adílio, Tita, e o futebol pra mim se transformou numa caixinha de nadas, a não ser em Copas do Mundo, mais pela zorra, do que pela paixão.

Mas eis que esse campeonato atual se tornou excitante! É muita competição ao mesmo tempo: quem desce, quem sobe, quem é campeão brasileiro, quem vai pra Copa das Américas, ou algo assim.

Nesse último domingo, então, eram três tvs ligadas ao mesmo tempo, cada uma em um canal, cada uma em um jogo diferente. Vi-me, novamente, refém de 22 homens correndo atrás de uma bola! E o melhor: à exceção dos pobres botafoguenses, o Rio virou uma festa só...

Enfim, tudo isso pra dizer apenas, e conclusivamente, DÁ-LHE MENGÃO! O HEXA É NOSSO! E pra colocar nesse blogue um poster recebido via e-mail que me parece inspirado num pintor por mim muito admirado: Rubens Gerchman, um grande artista apreciador do (pop) futebol:

30 de novembro de 2009

Ê boi...

As fotos abaixo vieram da balsa "até a margem do grande rio", de Edu Campos (link ali ao lado, ainda não consegui fazer links diretos, sou lenta como as vacas...), que mui gentilmente permitiu que as colocasse aqui.

Estava esperando uma oportunidade para usá-las de uma forma mais...ahn...grandiloquente, mas me deu uma vontade danada de embelezar esse modesto blog hoje, domingão regado a vinho bom acompanhando um rosbife dos deuses (e que, por isso, me perdoem os bois).

Adoro vaca, boi, bezerros. Adoro seus olhos, o mastigar lento, a generosidade das tetas. Aquele andar macio de quem não tem pressa de nada...

E adorei as fotos do Edu, esse (des)conhecido que me dá a honra de, volta e meia, passear por aqui.
Thanks, E.







PS: não sou das mais chegadas à músicas sertanejas contemporâneas, mas confesso uma queda pelas antigas, como a que posto aqui e que me leva de volta à muitas violas encharcadas de cachaça, lá em terras das Minas Gerais...

29 de novembro de 2009

Pra você, imã da madrugada...



"... Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. ..."

Os dragões não conhecem o paraíso (fragmento)
Caio Fernando Abreu

28 de novembro de 2009

O Rio é lindo até em preto e branco...

Mais uma blogagem coletiva, desta vez lá da terra mãe, lá d'além mar, lá de Portugal querido, ó pá...
A proposta é "Preto e Branco", do blog Fábrica de Letras. Carioca da gema orgulhosa e nostálgica que sou, aqui segue minha contribuição...



27 de novembro de 2009

Rock + Anime

Muse é uma banda britânica de rock "alternativo" não muito divulgada por aqui, mas que está na estrada há 15 anos e já vendeu mais de 8 milhões de discos. Algumas de suas músicas me lembram um pouco o U2, pela bateria pesada, outras o Queen, pelo tom operístico e melodramático dos arranjos e do vocalista Matthew Bellamy.
Lançaram em Setembro o seu quinto álbum de estúdio, The Resistance.

Alguém teve a feliz idéia de unir uma das músicas desse álbum, "Exogenesis: Part 3", com uma série em animação japonesa intitulada Wolf's Rain.
Achei bonito...



Obs.: O enredo da série me parece simpático, apesar do texto confuso da Wikipédia: A história trabalha com muitos símbolos e conta que no futuro a sociedade humana começará a se estagnar e buscará soluções para sua existência. Existe a lenda de um paraíso que ainda guardaria boas condições de vida, mas este paraíso só estaria ao alcance dos lobos, que já estão extintos há mais de 200 anos.

As tensões da trama se desenvolvem em cima dos lobos, que na verdade não se extinguiram, e se disfarçam de humanos, usando um tipo de ilusão para serem vistos como humanos pelos humanos, para continuarem sua busca pelo paraíso sem serem incomodados. A sua relação com os humanos fica mais próxima quando os últimos criam Cheza, a Filha da Lua, uma humana criada artificialmente através de uma Flor, a Flor da Lua.

Ça va sans dire...

O que nos aguarda em 2010

26 de novembro de 2009

Herr Brasilien

Em 17 de Outubro um helicóptero foi abatido por bandidos/traficantes no Morro São João, ali pertinho do já mundialmente famoso Morro dos Macacos. Nesse mais do que lamentável episódio, três policiais morreram.
Operações militares, então, começaram a acontecer na área e deixaram, até o momento, um saldo de 40(!) mortos e um número não calculado de feridos.

Essa informação me bateu muito mais como o resultado de uma política pública voltada para o extermínio e baseada na criminalização da pobreza, do que como uma ação estudada com inteligência e colocada em prática com competência: uma ação multidisciplinar, que não pensasse apenas que "retirar de circulação os elementos transgressores" vai erradicar o Crime maior e mais daninho que é o extermínio da Esperança e do Futuro.

O que me entristece (e atemoriza) é perceber que esse tipo de "ação" encontra cada vez mais simpatizantes na sociedade civil, que se paraliza acuada em suas casas na espera de ser a bola da vez na sinuca da violência urbana.

Barbárie deve ser isso: o Medo paralisando o cérebro e o coração. O salve-se quem puder absoluto. O "farinha pouca, meu pirão primeiro" instalado como Instituição. A Vingança como única forma legítima de salvação e defesa perante a Violência.


Isso tudo me remete à um texto escrito pela judia/polonesa/socialista/revolucionária Rosa Luxemburg lá nos idos de 20, estranhamente(?) atual e oportuno...



(meu Deus, será que estamos nos aproximando da Alemanha pré-nazista? Será que o Ovo da Serpente está sendo engendrado também em terras tupiniquins?!)

"...Ninguém pensou até agora nos milhares de figuras pálidas e macilentas que definham anos a fio atrás dos muros de prisões e penitenciárias expiando crimes comuns.

E no entanto são vítimas infelizes da infame ordem social contra a qual a revolução se dirigiu; são vítimas da guerra imperialista, que levou a miséria e a desgraça aos extremos da mais insuportável tortura; que, ao custo de uma carnificina brutal, desencadeou em naturezas fracas, dotadas de taras hereditárias, os instintos mais vis.

A justiça de classe burguesa funcionou mais uma vez como uma rede que deixa tranquilamente escapar de suas malhas os tubarões rapaces enquanto as pequenas sardinhas nelas se debatem desamparadas. Os especuladores, que ganharam milhões com a guerra, ficaram na sua maioria impunes ou receberam penas pecuniárias ridículas; os pequenos ladrões e as pequenas ladras são punidos com penas de prisão draconianas.

(...)

O sistema penal existente, profundamente impregnado de um brutal espírito de classe e da barbárie do capitalismo, precisa ser extirpado de vez. É preciso começar imediatamente uma reforma de base do sistema penal. É evidente que uma reforma totalmente nova, no espírito do socialismo, só pode ser estabelecida sobre o fundamento de uma nova ordem econômica e social, pois tanto crimes quanto castigos estão em última instância enraizados nas condições econômicas da sociedade..."

Um Dever de Honra (fragmento)
Tradução de Isabel Loureiro

25 de novembro de 2009

Analogias ainda buzianas d'outrora

Nesse revival buziano, a banda inglesa The Smiths, ícone dos 80's, naturalmente me veio à cabeça (e à saudade...). Seu som beirando o soturno, "dark", como se dizia à época, é, paradoxalmente, a cara daquela estrada, das festas esfumaçadas de maresia à beira do mar de Armação, das caminhadas noturnas de Geribá à Ferradurinha, de tantos PFs de peixe divididos no Barbuda...

Com a palavra, o Deus Tube (e essa analogia tubeana agradeço ao amigo balseiro Edu Campos):



E rola a bola, a nota re-toca, e o mundo roda também. Do mesmo Tubo divino, Radiohead, a banda que volta-e-meia-volta à esse nostálgico blog, sempre a me enlevar, em estúdio, declarando seu amor pelo mesmo Smiths.
A do rei!

24 de novembro de 2009

I Love Búzios, ainda...

Búzios, para quem não conhece, é uma península com 23 praias, localizada a cerca de 190 km do Rio (foto no post abaixo). Frequento o lugar há mais de 20 anos e não consigo deixar de ser feliz ali. Existe qualquer coisa mágica naquelas praias, nos ares da maresia, no vento que quase nunca descansa. Nas cores.
Definitivamente, o sol brilha diferente ali.

Mas, como o Sofrimento é meu fiel companheiro, também não consigo evitar uma pontada no coração a cada retorno: o que estão fazendo com a região é um crime, literalmente: Búzios é uma área de restingas especialíssima, tem um tipo de Mata Atlântica que se forma em solo arenoso, já ameaçado de extinção, e está sendo destruída cada vez mais rápida e ferozmente.

Com o fato do ser humano, gafanhoto que é, precisar ocupar os paraísos, já me conformei. O que não dá para aguentar é a burrice especulatória, a sôfrega ganância acima de tudo. Pegam os terrenos nas encostas e constroem em, digamos, 1000m quadrados, onde deveria, no máximo, caber uma casa de 100 metros de área construída, verdadeiros monumentos ao mau gosto de três, cinco andares, sem deixar uma árvorezinha sequer para dar um "colorido" na paisagem. E ainda fazem "gramados" onde antes havia mata cheia de passarinhos.

É casa sobre casa mesmo, principalmente nas regiões de Geribá, a mais famosa e badalada praia, Ferradurinha, sua vizinha já "ferrada" para sempre, e João Fernandes, onde sequer conseguimos chegar na areia, dada a quantidade de hotéis cafonas e suas mesinhas e ombrelones pelo caminho. Sem falar de Armação, o "centro nervoso", famoso por ter hospedado Brigitte Bardot lá nos 60's, em cujas águas não mais tenho coragem de mergulhar.

E olha que Búzios foi reconhecida pela União Internacional para Conservação de Natureza como um Centro Mundial de Diversidade Vegetal, título concedido a poucos lugares no mundo que resguardam espécies raras e ameaçadas. Aquela vegetação abriga nada menos que 20 espécies de orquídeas endêmicas e tem um tipo único de cactos que está dando lugar a coqueiros ornamentais e que tais. Putz!

Búzios sofreu diversas invasões de franceses, holandeses e ingleses, e resistiu. Já foi base de piratas, serviu como ponto estratégico para o tráfico de escravos, e resistiu. Viu seu pau-brasil ser praticamente extinto, e resistiu.
Quanto tempo mais será que vai resistir à invasão argentina e à sanha demolidora dos tratores ensandecidos?

Abaixo, dois videos que encontrei no Youtube (um deles em Super-8! Uma delícia...) e que servem como uma mostra do que era e do que é hoje, 30 anos depois, a praia de Geribá. Reparem que não havia nada, a não ser poucas casinhas de pescadores, na beira da praia e nas encostas. Sugestão? Assistam aos dois ao mesmo tempo.

PS: Apesar disso tudo...ai, que vontade de voltar!



19 de novembro de 2009

O destino é apenas a desculpa...


-É roubada. Roubadaça das boas.
-E daí? Roubada maior é a Permanência.



Nada como a promessa de uma estrada para derreter minhas convicções.

Então, até a volta, depois do Grande Engarrafamento...

"Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada..."

A melhor maneira de viajar é sentir (fragmento)
Álvaro de Campos

18 de novembro de 2009

A relatividade segundo meu amigo HB


"Testei o Homem. É inconsistente."
Albert Einstein

"Testei a Mulher. É com sistite."
Humberto Borges

17 de novembro de 2009

Cem vezes salve!!!!

Viajando por esses rincões virtuais, eis que me deparo com a pérola de video que segue abaixo. Vale a pena dar uma conferida e chegar até o final. Esse pitéu permite um manancial de leituras: moda, padrões de beleza, estilo linguístico, História (nosso ufanismo brazuca está mesmo no DNA...).
E que texto, meu Deus, que locução!
Não sei quanto a vocês aí, mas eu, no alto de minha profunda ignorância, desconhecia totalmente a existência dessa que se tornou nossa primeira Miss Universo: a gaúcha de Pelotas, Yolanda Pereira.
Reproduzo aqui a informação wikipediana:
"O concurso de Miss Universo, chamado na época de "Concurso Internacional de Beleza", foi realizado no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. O país tinha seus jurados em desvantagem, e o resultado final estava na dependência dos jurados europeus, sendo que a favorita era a Miss Portugal. Mas, para alegria dos brasileiros, a escolhida foi Yolanda. Em agosto de 1930 (algumas fontes indicam o dia 7 de setembro) Yolanda foi proclamada Miss Universo. O parecer da comissão julgadora levou em conta quesitos como beleza, graça, equilíbrio, proporção, formas e distinção. Os jurados também estiveram atentos ao tipo étnico e à visão do conjunto."



Yolanda morreu em 2001, aos 90 anos.

16 de novembro de 2009

Recordar ameniza...

O Rio está parecendo a úmida Londres e os cariocas, encharcados de suor e chuva, começam a andar encurvadas e possessos com a falta de sol, com as nuvens que nublam a paisagem. No fim do túnel, só as enchentes (e São Paulo mais além...).
Estamos deprimindo.

Então...

Em homenagem à chuva que não para,
em homenagem ao cinema
e aos homens bonitos...



Boa semana a todos.
Glub glub.

13 de novembro de 2009

Para você, imã da madrugada...



"...Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço..."

Para uma Avenca Partindo (fragmento)
Caio Fernando Abreu

12 de novembro de 2009

Putz!

Eu hoje acordei assim...



Passei o dia assim...



E agora estou assim!!!!!

Back to past

Nessa onda de recordar antigas brincadeiras (vide post abaixo), resgatei, também, ondas sonoras perdidas em algum lugar do meu passado.
E Billy Paul é um que se faz presente agora, principalmente por essa música, que tocava sem parar na minha "eletrola", lá no início dos 70's.
Por que será que, hoje, me dá vontade de chorar?



E por que essa outra ainda me faz sair dançando alegremente?
Ah, os estranhos e desconhecidos caminhos da memória afetiva...

10 de novembro de 2009

Topando a brincadeira

Adorei a proposta de uma blogagem coletiva lançada pelo VOU DE COLETIVO. E o tema desse mês é "Brinquedos: dos mais antigos aos mais recentes".
Como o passado me apetece, de cara me transportei no tempo a lembrar de velhas brincadeiras, como a de amarrar lençóis pelo quarto, de modo a transformá-lo numa grande tenda. Ficava ali, fazendo quase nada, a não ser simplesmente estar naquele espaço meio útero, meio caverna, esperando a hora em que a fantasia era obrigada a ceder lugar para o jantar, ou, pior ainda, para o banho. Às vezes essa caverna se transformava no Banco do Brasil e eu me tornava uma bancária a carimbar papéis roubados do escritório de meu pai. Vai entender a mente de uma criança...


Lembro também de muitos carrinhos match box, de autoramas, de uma mini aldeia de índios, cheia de bonequinhos e cabanas, que ficava no "quarto proibido" da casa de meus primos maternos, meninos "mais velhos" que não curtiam nem um pouco as incursões curiosas (e por vezes destruidoras) da priminha pentelha.

E tinha pingue-pongue, pique-bandeira e queimado. Ai, que delícia jogar queimado, meu Deus! Seria capaz de jogar ainda hoje, convidada fosse. E de patins, skate, e um tipo de velocípede que era como uma pequena carroça atrelada a um cavalinho de gesso, onde ficavam os pedais.


E, claro, mas não tão importantes, algumas bonecas também, como a coitada da Suzie, solteirona e solitária avó da assanhada Barbie.


E subia em árvores no quintal de casa (em plena Copacabana, imaginem!), soltava pipa e andava de bicicleta Monareta, que costumava virar de cabeça para baixo e transformar num carrinho de pipoca imaginário...


Tempos depois, a velha e indefectível "pera, uva e maçã" me deixava tensa ante a possibilidade do primeiro beijo na boca...Êta gostosura!

Nossa! Quantas memórias guardadas e abandonadas nesse disco rígido de minha cabeça! Há quanto tempo que eu não as visitava...
Valeu, VOU DE COLETIVO, por me fazer resgatar tantos risos. E tantas amizades que já não cultivo, mas que, raízes, são o que, hoje, me fazem "eu".

9 de novembro de 2009

Chupado do Todo Prosa



À despeito do post abaixo, não posso me furtar a compartilhar essa pérola que meu querido Ricardo Soares encontrou no iutube.
Tudo de bom, até porque derruba, na mais pura linha do "eu te admiro mas odeio qualquer unanimidade", esses mitos incontestes construídos pela mídia.
Caetano é gênio, sim, mas não intocável.
E em nome do humor inteligente, convenhamos, tudo vale a pena.
Divirtam-se.

6 de novembro de 2009

Me ufano de Caetano, sim!

E eis que novamente Caetano Veloso ocupa as primeiras páginas dos jornais e cruza oceanos, chegando até a blogs de além-mar. Suas opiniões sempre soam retumbantes e incomodam. Nossa, como incomodam! Quando se mete a falar de política, então...

Seja a discorrer sobre Lula, bananas, ou Woody Allen, é impressionante a capacidade que esse homem tem de chamar atenção, ou melhor, de atrair a atenção. Praticamente uma Madonna dos trópicos...

Mas já passei da fase de reclamar que ele fala demais. Agora, eu relaxo. E gozo. Mais pela polêmica e pelo frison que provoca, do que propriamente pelo que diz- apesar de que fatalmente me pego, no mínimo, pensando seriamente em suas palavras e, muitas vezes, concordando veementemente.

Enfim, esse post aqui é só para lembrar rapidamente aos críticos ferozes e implacáveis, aqueles que misturam as opiniões do homem com seu fazer artístico, que Caetano é genial, sim, basta que revisitem sua obra para constatar. Respeitem, pois, os cabelos brancos desse recém-nascido velho que há mais de 40 anos nos brinda com as músicas mais lindas, os poemas mais doces e os pensamentos mais concretos...

Abaixo, à título de ilustração, uma música que sempre me emociona, composta em homenagem a seu pai e a Mick Jagger.

(E aqui me despeço. Meu tchauzinho. So long, até a volta de um fim de semana a la campagne).


O Homem Velho
(Caetano Veloso)

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

5 de novembro de 2009

Devaneios amigos

Quando eu era criança, costumava ficar pensando em lugares e épocas que gostaria de visitar caso pudesse viajar no tempo (desnecessário dizer que era fã incondicional do seriado "Túnel do Tempo"). Sempre me vi duquesa numa França pré-revolucionária a cavalgar pela Campagne com aqueles vestidos rodados, o castelo ao fundo, cachorros ao redor, o chapéu emplumado ligeiramente inclinado... Trés chic.

Uma outra viagem seria para o Rio de Janeiro, lá pelos idos do século XV, XVI, pré-colonial mesmo, com sua natureza intacta, a Lagoa quase se unindo ao mar, os mangues, os laranjais, tantos limoeiros e quantas gaivotas...Isso talvez por influência de meu pai, da família toda - somos carioquérrimos há pelo menos 7 gerações - e de tantas fotos e livros sobre o Rio antigo que até hoje insistem em pular das estantes diretamente para meu colo.

Enfim, sempre viajei nas impossibilidades e sempre fiz da imaginação o meu melhor meio de transporte.

De uns tempos para cá, comecei a imaginar amigos. Não exatamente amigos invisíveis, ou inexistentes, como os das crianças solitárias, mas amigos de carne e osso, estejam eles vivos, ou não. Explico melhor: existem pessoas na História, de todos os tempos, de quem gostaria de ser amiga, com quem gostaria de conviver. Exemplos?


Maria Antonieta. A-do-ra-ria frequentar o Petit Trianon, vestir aqueles modelitos, tomar chá à tarde, passear pelo jardim e flertar pelos salões de Versailles (pensem, porém, que em meus delírios tudo é belo, nada cheira mal, os dentes são perfeitos e há croissants para todos!).


Outro exemplo?


Elke Maravilha. Seria ótimo partilhar de sua exuberante alegria, ouvir seus causos, experimentar suas roupas lindas, suas perucas loucas, ouví-la declamar poesias, ainda que em russo.

E tem também os Novos Baianos (quantas viagens faríamos!), Freud (ficar ouvindo suas divagações sobre a psiquê humana...que delícia!), Charles Chaplin (só para frequentar os sets de filmagens), Scott Fitzgerald (ai, quantas festas, quantos espocares de champanhe!!).

Mas talvez o meu maior e mais querido amigo imaginário seja mesmo o Oscar Wilde. Como eu gosto desse cara! Tenho certeza de que nos daríamos muito bem. Em primeiro lugar, porque é (era) muito inteligente, e cérebros pensantes me interessam. Em segundo, porque macho pacas em sua condição corajosamente gay, e coragens me fascinam. E em terceiro, porque divertidíssimo, e senso de humor me apaixona.
Como não desejar conviver com pessoas que são capazes de sacar a alma humana em toda sua estupidez e mesquinharia e, mais ainda, que conseguem transformar isso em algo aprazível?
Atentem para essas frases do gênio:
-"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal."
-"Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza."
-"Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros têm de curiosamente atractivo."
-"As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro e as mulheres que têm passado."



Oscar Wilde
Cínico pacas. Hilário. J'adore...

2 de novembro de 2009

Será que ele chorou?


Gente!!! O que está acontecendo? Será a Sorte? Serão as estrelas? Ou será o quinto dedo de nosso presidente metido nesse balaio?
Sei não...Essa história do Rio sair ganhando tudo que é disputa está começando a me intrigar. Primeiro veio a Copa do Mundo, depois, Olimpíadas. Elegeram o Rio como a cidade mais feliz do mundo e, agora, é também o melhor destino gay!!!
É aquela coisa de gato escaldado: quando o feijão é demais, a gente desconfia. Ou tá queimado, ou o prato é raso...
Gostaria mesmo é de ter acompanhado-o-Lula-acompanhando esse último "desafio". Será que ele torceu muito, gente? Será que ele telefonou pro Paulo Coelho fazer umas macumbinhas chiques lá de Paris? Será que ele se agarrou ao Eduardo Paes, que já deveria estar aos prantos, pendurado no pescoço do Sergio Cabral?

Só a título de informação:
O Relatório Anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), que lista desde 1980 os assassinatos de homossexuais no Brasil, aponta que, em 2008, houve 55% mais crimes do gênero do que no ano anterior - 190 ante 122. Em 2007, o crescimento, na comparação com 2006, havia sido de 30%.

O dado, segundo o GGB, posiciona o País como o mais homofóbico do mundo, seguido por México, que registrou 35 casos de homossexuais assassinados no ano passado, e pelos Estados Unidos, com 25. Desde o início do levantamento, o total de homicídios considerados homofóbicos pela organização chega a 2 998.


Agora é aguardar as melhorias que serão feitas no Rio para receber nossos alegres, gastadores e festeiros amigos. Imagino que será necessário muito mais do que os R$800 mil prometidos para a próxima Parada Gay para tornar a cidade digna desse título tão colorido.

Roubado do "O Jardim Alheio"

Para coroar essa melancolia que brota em mim nesses dias de mortos e, então, de consequentes saudades de tantos (e quantos!) que se foram sem que eu sequer tivesse tempo de perceber a falta que me fariam...

O infinito
"Sempre cara me foi esta colina
Erma, e esta sebe, que de tanta parte
Do último horizonte, o olhar exclui.
Mas sentado a mirar, intermináveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e uma calma profundíssima
Eu crio em pensamentos, onde por pouco
Não treme o coração.
E como o vento
Ouço fremir entre essas folhas, eu
O infinito silêncio àquela voz
Vou comparando, e vêm-me a eternidade
E as mortas estações, e esta, presente
E viva, e o seu ruído.
Em meio a essa
Imensidão meu pensamento imerge
E é doce o naufragar-me nesse mar."

Giacomo Leopardi
(tradução de Vinicius de Moares)

OU AINDA, EM TRADUÇÃO POR MIM DESCONHECIDA...

"Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe, que por toda a parte
do último horizonte o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá dela e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu no pensamento me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E como o vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu aquele
infinito silêncio a essa voz
vou comparando: e me sobrevém o eterno
e as mortas estações e a presente
e viva, e o som dela. Assim entre esta
imensidão se afoga o pensamento meu;
e o naufragar é-me doce nesse mar."

E AGORA, O ORIGINAL...

L’infinito
Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa
Immensita s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare.



Giacomo Leopardi

(29 de junho de 1798 -
14 de junho de 1837)

1 de novembro de 2009

Êta domingão...

Chove. Nada mais domingo do que um domingo de chuva. E com essa baita gripe que me domina então...
Vagando por esses mares virtuais, cheguei a um blog que me mostrou o jovem e genial pianista inglês Jamie Cullum tocando Radiohead, a banda que, como já disse em outro post lá embaixo, me cativa nesse início secular:



Dali, imediatamente recuperei na memória pianística o pernambucano gracinha Vitor Araújo, enorme talento que brilha no alto de seus 21 anos, que também curte Radiohead e que é capaz de fazer loucas fusões entre o rock, o baião e o que mais lhe der na telha.
Até que tá valendo esse super domingão...

Acreditar, enfim?

Fazer Ciência é uma das poucas capacidades do ser humano que ainda me comovem positivamente (uma outra é o fazer artístico).
Recebi as fotos abaixo, via e-mail, de um primo médico. São do interior do corpo humano e foram tiradas por um super-hiper microscópio capaz de detalhar tamanhos variáveis entre um e cinco nanômetros. Pense que um nanômetro equivale a um bilionésimo de milímetro! Putz.
Abaixo, alguns desses exemplos em que fica difícil definir o que é Corpo, o que é Arte.
(ai, que vontade de acreditar em Deus...)


células vermelhas


células cancerosas no pulmão


alvéolos do pulmão sadio


óvulo fertilizado e espermatozóides remanescentes

Considerações na madrugada




Nessa semana uma amiga me recomendou, sem muito entusiasmo, o filme "Quem quer ser um milionário", de Danny Boyle (vide "Transpoting" e "Cova Rasa"): "interessante", ela disse, "mas não entendi bem sobre o que ele trata", completou em reticências.

Acabei de assistí-lo agora e, ainda sob seu impacto, resolvi tentar colocar nessas linhas que seguem algumas considerações ainda não muito analisadas, mas que pululam alvoroçadas vagando entre risos e lágrimas...

Respondendo à minha amiga, poderia dizer que esse filme trata sobre a Índia, e não estaria mentindo: as lentes corajosas do diretor desfraldam um país famoso por sua natureza de cartão postal, por sua religião, arquitetura e História, mas imerso em loucas contradições bastante conhecidas por nós aqui na terrinha; conseguem rimar fome com violência, abandono com intolerância, para construir um poema por sobre as cinzas da escrotidão humana e pintar 24 quadros por segundo com todas as cores da pobreza terceiro mundista.

Poderia ainda dizer que trata sobre o Amor. Sobre um sentimento ali forjado na cumplicidade e na inocência da infância e que resiste à realidade e aos percalços do imponderável. E como são imensos os amores que no filme se renovam! Amor de irmãos, amor de mosqueteiros, amor de um homem por uma mulher. Amor por um sonho, por uma saudade.

Mas não diria, à despeito do título, que trate sobre a ganância, nem sobre desejos de riqueza. Absolutamente não. Nenhum personagem no filme é deslumbrado pela possibilidade de se tornar milionário, e os poucos endinheirados que por ali aparecem são uns infelizes coadjuvantes, sem nenhuma relevância outra que não a de servir como "escada" para nossos heróis involuntários.

Mas talvez a melhor palavra para definir "Quem quer ser..." seja "esperança". É, acho que é um fime sobre isso, sobre esse sentimento tão comprometido e clichê que insiste em nos levar à frente na eterna busca por algo em que possamos acreditar, em algo pelo que possamos lutar. Não foi à toa que falei em "amor de mosqueteiro" lá em cima. E não é à toa que esses 3, 4 ou 5 fiéis e bravos defensores de um longíquo rei francês são a grande metáfora do filme, seu grande lite-motiv, e que acabem por fechá-lo com uma enorme e brilhante chave de ouro.

29 de outubro de 2009

Crack da zona sul



Há mais ou menos 16 anos comecei a ter notícias do uso do crack por amigos de amigos aqui no Rio. Coisa pouca, à boca pequena, aqui e acolá. Dizia-se à época que os traficantes não deixariam essa droga entrar na cidade, não por consciência social, note-se bem, mas porque daria pouco lucro comparada à maconha e à cocaína.

Alguns anos depois estive em Aracaju (!) e soube, e vi, que o crack já se alastrava com sucesso pela periferia da cidade, numa onda destrutiva alarmante e absolutamente ignorada pela maior parte da população.

Por essa época, notícias começaram a espocar no Fantástico, com aquele off trombonesco do Cid Moreira, sobre a drogadição de mendigos e menores abandonados nas praças paulistas. Câmeras escondidas, repórteres disfarçados, era tudo quase "normal" e o show da vida continuava entre os intervalos comerciais.

Enquanto a praga do crack estava restrita aos Raimundos nordestinos que apenas facilitavam a rima; enquanto o flagelo venenoso atacava apenas os Josés das praças das Sés sem agoras, sem rosto e sem interrogações, não havia o medo, não havia endereço, não havia questões: era apenas um susto, era apenas espetáculo, era tão somente fantástico.

Mas eis que finalmente o maldito barato alcança a classe média carioca e assassina na zona sul! Imediatamente a mídia se alarma e faz alarde. Descobre-se repentinamente números e abusos que apavoram e levantam os cabelos do Leblon: as pedras que estão no meio do caminho, afinal, não tem cheiro de maresia e são absolutamente reais e letais!

Há tragédias que superam a dor para se tornarem símbolos. E a morte assassinada- coisa mais triste!- da menina Bárbara parece ser um desses casos.

Que não seja em vão e que não seja fantástica, mas que desperte, sim, a Consciência.
(e essa vontade de chorar pela raça humana parece não ter fim...)

18 de outubro de 2009

Enquanto isso, rumo às Olimpíadas...



Nem Oliver Stone, nem Fernando Meirelles: essa é a realidade no coração de Vila Isabel, um dos bairros mais tradicionais da cidade maravilhosa, terra de Noel Rosa e Martinho da Vila, um pedaço de terra que outrora pertenceu aos jesuitas e que hoje é conhecido por Morro do Macacos.

Mas, rejubilemo-nos todos, teremos 28 bi para investir em "melhorias" para as Olimpíadas.
São as contradições da vida...

16 de outubro de 2009

Uma puta deputada!


Adorei saber que Gabriela Leite, socióloga formada pela USP, ex-prostituta (se é que essa classificação é possível) e uma importante líder de suas "colegas" brasileiras, será candidata a deputada federal pelo PV.

Mulher inteligente, fundadora da ONG Davida e da grife Daspu, com certeza Gabriela será um up-grade no quadro político brasileiro, já que, no mínimo, poderá subir na tribuna e falar com autoridade de mãe, visto ser a maioria de nossos nobres congressistas uns grandes filhos da puta!

A discussão promete, estou até excitada. Já era hora dessa gente maquiada e laboriosa mostrar seu valor. Todos nós, afinal, vendemos alguma coisa de nosso: idéias, escritos, talentos, músculos, braços, pés, cérebros, tempo...Por que não os corpos, pura e simplesmente? O que poderia fazê-la pior do que a corja ignara que pulula em Brasília?

Gabriela com certeza entende de dor, de rejeição, de preconceito. De necessidades básicas, de respeito ao próximo, de luta, de direitos cidadãos. Gabriela é PHD em Brasil e vai sacudir a poeira dos tais "antigos ideais": ela é, afinal, a própria encarnação de uma "nova idéia".

Já que nobres economistas, seletos advogados, respeitáveis empresários, não mais conseguem manter suas cabeças erguidas, talvez uma puta lhes dê uma mãozinha...

8 de outubro de 2009

Começa assim...o que virá depois?



Não bastasse explodirem a Terra, agora a sanha destruidora dos "proprietários" do Universo atingiu a lua!
Se tudo correr bem, e no melhor das hipóteses, teremos que admitir que Nina Haggen estava certa: os ETs estão de olho e virão nos salvar...de nós mesmos!

Sempre ela...

"Somos iguais à morte. Ignorados e puros.
E bem depois (o cansaço brotando nas asas)
seremos pássaros brancos à procura de um deus."
Hilda Hilst

7 de outubro de 2009

Essa voz me enleva...e alucina.

A primeira vez em que ouvi Portishead, uma banda britânica de trip hop formada na década de 90, impressionou-me de imediato a voz de sua vocalista, Beth Gibbons. Era até difícil escutar aqueles lamentos, angustiados sussurros que atacavam diretamente a alma. Fiquei, literalmente, chapada.

Nesse estado meio deprê em que me encontro, procurei um fundo musical adequado para se enquadrar entre o por do sol e a lua cheia.
(re)Encontrei.



E abaixo, compartilho um recente achado internéctico, registro amador de um trabalho de Gibbons com o músico português (ex- Madredeus) Rodrigo Leão.

4 de outubro de 2009

Deprê pós férias




Recém chegada de Trancoso, onde estive pela primeira vez em 1982, e de onde guardo irreparáveis saudades, resolvi ir ao cinema depois de longos meses de abstinência. Hoje assisti a dois documentários muito bons no Festival do Rio: "Árvores com Figos", classificado como gay por tratar sobre Aids, do canadense John Greyson, e "Uma moda Transgressora", do alemão Marco Wilms, sobre jovens envolvidos com moda alternativa na Alemanha Oriental lá nos idos de 80.

E é esse último que me faz voltar a esse abandonado blog. Não pelo filme em si, mas pelo que me disse o diretor quando perguntei sobre as saudades que ali transbordam a 24 quadros por segundo, como se falta ele sentisse dos anos de repressão: "-Não é exatamente do estado das coisas de que sinto falta, mas da juventude".

Bingo. É isso mesmo. Enquanto andava pelas praias de Trancoso e olhava com sentimentos apocalípticos para aquela mata ainda preservada, mas já no corredor da morte, ou quando sentava no Quadrado e observava a turistada predatória esvoaçando em bandos barulhentos pelas inúmeras lojas e restaurantes, era por mim mesma que ensaiava um choro sem lágrimas. Era em meu Nome que minha alma cantava o blues, e não pela Bahia, e não pelo planeta.

Minhas saudades, traduzo agora, vibram pela minha esperança que se desmorona a cada dia, pela minha fé que se torna atéia, pelos meus sonhos cada vez mais esquecidos e desacreditados.

A minha tristeza não era pela raça humana, mas pelo meu corpo decadente, pelo fôlego que se encurta, pelo tesão que fica pra depois do cansaço interminável...

A grande diferença entre a Trancoso dos anos 80 e a de hoje, não é cidade e suas transformações: sou eu e o meu olhar.

Envelhecer é uma merda!

21 de agosto de 2009

Derrame

Gosto de palavras.
De sons e palavras.
De sons de palavras
De palavras em som...

Trissílabas. Monossílabas.
Gosto de quebra
De para/digmas.

De várzea, rastro e borboleta
Gosto da palavra concreta
Da palavra porreta
que envolve qual manta.
Monta, tonta, tantra
Gosto de Mantra.
E do sabor de saber
da liga que rima com imã:
Você.

18 de agosto de 2009

Sterlac

Sterlac é um artista/performer/cientista/pensador australiano que intriga por sua postura quase filosófica de encarar e traduzir a contemporaneidade.
Para além de artista plástico, Sterlac pensa a nova relação corpo-tecnologia, psiquê-biologia, para chegar ao pós-humano, um espaço onde as distinções metafíscas (alma e corpo) se deixam ultrapassar pela preocupação com as novas possibilidades de construção corporal - corpo esse, segundo o próprio, já absolutamente obsoleto.



Transformação, essa é a nova palavra de ordem. Cyborg, esse é o novo Homem que se avizinha. Liberdade total e irrestrita, o novo paradigma para que possamos assumir a propriedade do que temos de mais nosso: o corpo.
A questão que Sterlac coloca (e provoca...) é tão simples, quanto pirante: "O CORPO DEVE IRROMPER DE SEUS LIMITES BIOLÓGICOS, CULTURAIS E PLANETÁRIOS. A LIBERDADE FUNDAMENTAL É A POSSIBILIDADE DOS INDIVÍDUOS PODEREM DETERMINAR O DESTINO DE SEU PRÓPRIO DNA".
E, pensando bem, estamos realmente vivenciando a aurora desses tempos, quando nosso frágil corpinho pele-carne-osso não mais será suficiente para carregar a quantidade de informação a que temos direito. Se os velhos marca-passos já revolucionaram ao controlar os batimentos cardíacos "naturais", o que dizer de todas as próteses, transplantes, implantes, membros artificiais?



Imaginemos o mundo daqui há...50 anos? 70 anos? Facilmente consigo pensar em chips cerebrais, em um homem com quatro braços, em teletransporte, telepatia internéctica. A informação implantada em nossa mente, uma hiper-ligação entre o pensamento e o Google. Nem os Jetsons foram tão longe...
Abaixo, a performance (?) mais polêmica de Sterlac: custou-lhe dez anos até encontrar um cirurgião que concordasse, mas finalmente ele conseguiu implantar uma orelha em seu braço. O objetivo final é o de colocar um microfone ligado a um transmissor bluetooth de modo que a orelha implantada transmita o que o braço "ouve", via Internet, para quem se interessar possa.
Achei genial. Louco, e genial.

17 de agosto de 2009

CallmeKat

Ainda ouviremos falar da dinamarquesa Katrine Ottosen, o elo perdido entre Bjork e Suzane Vega. Uma grata descoberta nesses mares sonoros virtuais.
Acendam velas, um bom vinho tinto também cai bem.
Enjoy...

14 de agosto de 2009

Assim, sim.

Há alguns dias deparei-me com o video abaixo. Achei graça, simpático e tal, mas não pensei em postá-lo. Por essas casualidades (será?)da vida, encontrei-o novamente num outro blog e aí, sim, dada as informações obtidas então, e como linka com o livro sobre o qual comentei ali embaixo à respeito da Internet, decidi-me a compartilhar o dito:



A brincadeira rendeu nada menos do que 12 milhões de acessos!!! Não bastasse isso, os protagonistas ainda se transformaram em notícia, e reproduziram a performance num programa de tv (os interessados podem procurar no Youtube "Jill and Kevin's").
O mais engraçado, porém, fica por conta do video a seguir: a interpretação da fatídica hora do divórcio.
Está lançada, pois, a idéia para futuros nubentes ansiosos por celebrizarem o sim, e o fim, de seu amor...