9 de julho de 2009

Saúde pública brasileira é o ó!

No ano passado entrei com uma ação na justiça para ter o direito de receber a insulina e as tiras para medição de glicemia, de que sou absolutamente dependente, gratuitamnete, como reza a Constituição (arts.5o., caput 6o. e 196).

Causa ganha pela advogada Felícia Beatriz de Carvalho Sampaio, imaginei que meus problemas com o gasto de cerca de 500,00 por mês estavam resolvidos. E de certa forma, estavam. O que eu não esperava, criatura criada no seio da classe média favorecida pelo milagre econômico dos anos 70 que sou, era a realidade que me aguardava: o local da entrega dos insumos, então na Pça XV, num buraco num segundo andar de um prédio que deveria estar condenado pela defesa civil, sem refrigeração, com paredes desbotadas e computadores jurássicos, além de deprimente, quase não dava conta da quantidade de gente que para ali corria na busca de remédios dos quais dependiam para continuarem vivas. Bom, até aí, uma questão de...digamos...estética. O pior mesmo eram os atrasos da entrega desses remédios.

O processo era o seguinte: primeiro, levamos a receita com as necessidades específicas. Teoricamente, um mês depois, esses remédios ali estariam nos aguardando. Após buscá-los, deveríamos voltar com nova receita cerca de dois meses depois, e então aguardar mais um mês para buscar a nova entrega. E por aí la nave seguia, nesse leva receita, busca remédios.

OK, vamos nessa, tudo vale a pena quando a conta bancária é pequena...

A questão é que NUNCA os medicamentos me chegaram no prazo. Chegavam, mas semanas depois do previsto. Por várias vezes presenciei pessoas voltando para casa de mãos vazias porque precisavam de uma dose de qualquer coisa que simplesmente não havia. E, o pior, nunca vi, nem ouvi, um escândalo, um choro convulsivo, um desespero que fosse. Todos gados no pasto, como se fosse um favor do governo lhes dar aqueles medicamentos.

Na minha última incursão à Pça XV, soube que o local da entrega havia mudado para Triagem. Ninguém tinha avisado, para quê? Imaginem se os pobres e coitados doentes que precisam de remédios gratuitos precisam, também, economizar a grana da passagem? Já economizam na farmácia, podem muito bem gastar mais um pouquinho para chegar na Triagem, não vai fazer a menor diferença...

Bom, lá fui eu pra Triagem. O lugar, é preciso que se diga, é muuuito melhor que o prédio da Pça XV, mais claro, ventilado, até jardim tem. Quase fofo, eu diria. Meio inóspito, condução precária para a ida e volta (classe média etc etc etc que sou, gastei 60,00 em taxi para ir e voltar), mas quase fofo. Peguei parte do que precisava (as tiras de medição de glicemia) e fui informada que os dois tipos de insulina que consumo não haviam chegado, sem previsão de data para tal.

Duas semanas depois, uma amiga teve que ir buscar UMA das insulinas para mim, já que eu estava viajando a trabalho e eles não poderiam esperar minha volta. Apesar do atraso na entrega, havia prazo para a retirada da insulina.

Voltei de viagem, o outro tipo de insulina de meu estoque começou a acabar, e nada de notícias. Não sei se alguém já tentou ligar para um serviço público de saúde, mas eu não consegui: ou ninguém atendeu, ou dava ocupado. No mar de trabalho que me encontrava, não fui até Triagem checar pessoalmente, até que, por descuido meu, a tal da insulina ameaçou acabar de vez antes da entrega chegar pelo Estado. Fui até algumas farmácias para comprar outra caixa e soube que estava em falta no mercado!!!!!!!!

Quase em pânico, liguei mais uma vez e, milagre, consegui que atendessem para, logo depois, saber que não havia sequer um registro com meu pedido por ali. Meu nome simplesmente não consta na relação de recebimento, mas, mesmo que constasse, de nada adiantaria: não havia a insulina Novorapid a minha espera, ou melhor, não havia a insulina para ninguém!!!!E ainda tive que ouvir um "mas se a senhora mesmo está dizendo que está em falta no mercado, como é que nós vamos ter?".

Depois de muita pesquisa, acabei conseguindo uma caixa no centro da cidade, por 150,00.

Fico só imaginando quem não tem essa grana para pagar. O que fazem? Mudam de medicação? Param de comer para a glicemia não subir? Rezam? Morrem, simplesmente?

Que tipo de país é esse país que deixa seu povo assim...desprotegido, largado?
E ainda tem gente que é otimista...

3 comentários:

Edmar disse...

É tudo uma merda, mesmo. Mas o futuro nos espera com um sorriso. Há os que acham que melhora, mas demora; e há os que acham que demora, mas melhora. Estou no segundo grupo. Aliás, o "melhora" inclui uma saúde pública minimamente digna para os brasileiros e células-tronco para os diabéticos. É claro que as células-tronco vão demorar menos.

gentil carioca disse...

Meu otimista predileto apareceu!!!
E, só para completar (claro!),como até eu tenho cá meus momentos de otimismo, já me sinto a própria célula em flor...
bj

Edmar disse...

Talvez eu seja o último otimista. Daí, o "predileto" rsrs.
Mas, falando sério, e você deve saber disso, pesquisas que incluem o uso de céluls tronco em voluntários na China e na Argentina (é isso mesmo: Argentina)vêm dando excelentes resultados na reversão de diabetes. No Brasil, onde há excelentes pesquisadores, por uma questão legal, ainda não podemos usufruir de resultados desse tipo. Mas somos penta.